3.4.10

Who or When or What (B. Guerra)

Who am I to carry these loving fears
And who was I when I use to dry my tears
What will I do now that I can’t cry
What will I do when I feel so shy

Who’s gonna pull the trigger
Who’s gonna call me by stranger
Baby, It’s all on my mind
Honey, I just can’t deny

(Chorus)
Thanks for make me crawl
Thanks for let me down
Thanks for make me fall
Thanks for nothing at all


Where should you be in my lies
Where will you be when I leave you behind
So please now bring me the mirror
Show my scar face while I sink in the black river

16.3.10

It's All Done (B. Guerra)

I’ve walked alone
I’ve had friends once
Now It’s all gone
Just need to rest in peace

I’ve just arrived from nowhere
I’m right here with my shadow
Now that It seems to be done
Just need to relax and sleep

I’ve carried the world on my shoulders
I’ve drawn the line on the horizon
Now that life seems softer
Just need to lay down and down

I’ve worked hard yesterday
I’ve been young for a while
Now that my face isn’t the same
Just need to RIP and fly away

(Chorus)
I’ve been around
I’ve slept on the ground
Now that I’m old, It’s gone
Now that I’m sold, It’s gone
It’s gone, It’s all done

18.12.09

Rosie

You were born to die
Your life’s a great lie
Wait ‘til I get home today
I’ll help you find another way

You’re just a kind girl
Even when you lose your nerve
So bring the rainbow with you
And keep the beauty into you

(Chorus)
Rosie, your pride, what have you done?
Rosie, tell me why, where have you gone?
Rosie, It’s all up to you
Rosie, so long for you

So now that the sun went back
So now that the bad taste’s back
Take a look, here’s your change
Money doesn’t seem so strange

Well I’m not worry to say sorry
Now It’s you and what army?
Goodbye, you softly lies now
Goodbye, your breath doesn’t sound

You’re all alone, it’s not wrong
You’re all alone, here’s your sad song

Everyday Man

Walking through the past
It’s always simple and fast
The shadows don’t smile
Anymore

Things that whisper things
And bliss that moves the leaves
They always look the same
Anyway

And comes and goes a day
Feeds my simple way
I always feel the same
I don’t care

Well I’m just another guy
Not requested life
Things don’t seem to rhyme
I don’t mind

(Chorus)
Forever and ever
Over and over
Again and again
Anything, Anyway
Anyone, Anyplace

7.12.09

NUMSEGUNDO

tudonumsegundocomosefosseoúltimosemarsemparsemnadasóvocêsósóesóchegaahoradeacertarascontasaluzdosolcegaosolhosassimcomofazadorreluzirsobreapelequeserasgacomopapeledelasurgeovermelhovivoquesujaotecidoantesbrancoepensoemmomentosqueficamnanoiteacordadonobanhodemarnasensaçãodeliberdadenoventoaorostonamúsicapreferidanacomidaquefazsalivarnoprazerdevinteminutosnocolchãomacionosonoperdidonadorderirenaverdadederirdadortudopassasempararpelacabeçatudocomprimidopelaurgênciadoagoranafaltadepiedadedeseirmuitocedorumoaseiláoquêsemsaberseirávoltarnumconfusãonacabeçaenochacoalharentreareiaegalhosnorugirdosmetaisedosgritossilenciadospelomedotudoparecefácilpartidoemalentendidotodosetudosevainumgestodeamordesustodepenajesuspassarápidoúnicoapoionomomentosoltoaodestinosemdestinosemnoçãotudosefeznuminstantenumamostradequeotempopassamasaalmaficaassimcomoacertezadequepodeterofimcheg.... ..... ...... .. .. . . . __

14.10.09

Amor, Demasiado Amor

Mal podia esperar para vê-la de novo. Bater à porta e mergulhar naqueles olhos azuis que sempre o fascinou. O problema é que o sol ainda nem tinha nascido, e ele continua em claro. A noite, assim como tantas outras, transborda em sonhos e se mistura à música infame que a rádio toca no seu quarto. Ele se levanta, vai até a cozinha e, num lance de espelhos, vê suas costas desnudas. Não vê nada, mas a sensação de ter alguém atrás é real. Toma um copo d’água e pensa que essas sensações devem ser frutos da sua solidão. No reflexo do armário da cozinha, ele vê seu rosto marcado por olheiras e barba por fazer. Havia assumido essa cara-de-quem-não-quer-viver desde que ela viajou. Não fazia tanto tempo assim. Foi num domingo acalorado, disso ele se lembra muito bem. Mas o tempo não importa para quem desistiu de viver e prefere morrer de amor. Ainda na cozinha, puxa a cadeira de madeira e faz do desconforto o seu companheiro para o resto da noite. Os primeiros raios solares surgem pela fresta da janela e começa a esquentar levemente a face do homem, há pouco adormecido. Ele então abre os olhos lentamente e sente uma espécie de alívio. Havia chegado a hora. Pega o celular e com os restos dos créditos diz a ela: “amor, estou indo para aí. Me espera?”. A mulher diz que sim e completa: “não demora.”. Ele abre a boca e quando vai falar, ouve o sinal de desligado do outro lado da linha. No caminho, o homem olha pela janela do ônibus e depois para seu relógio, que continua a contar. Quando desce do ônibus seu coração bate ainda mais forte. Bate à porta da mulher com força, como se dissesse “estou aqui. Estou de volta.”. Lá de dentro vem uma voz que diz para esperar, pois, explica, estava acabando de se arrumar. Ele imagina aquele corpo nu que tantas vezes o levou ao ápice, à falta de ar num êxtase total. Por instinto fica excitado com o mistério. Como ela, a sua amada, estaria quando a porta abrir? A fechadura range, e os olhos dele se encontram com os dela. “Era tudo o que queria”, ele pensa que ela deve pensar. É quando ela diz “não vai entrar?”. Num golpe rápido a faca corre pela garganta da mulher cujas pupilas agora estão abertas, escancaradas. O sangue explode e mancha de vermelho escuro a parede. A porta bate. Lá fora, o sol continua a nascer.

12.10.09

A Vizinha

A vizinha ao lado é uma daquelas mulheres que não passam pela rua sem chamar atenção. Corpo escultural, que por debaixo da roupa (sempre preta), mal escondidas ficavam curvas delineadas e altamente sensuais. Posso dizer que tive sorte. Até porque não é sempre que uma vizinha surge do nada, bem no meio de um domingo sem graça, dia em que a vi pela primeira vez. Naquele momento, dei um sorriso desengonçado, e ela me respondeu com outro ainda mais tímido. Foi o início do surgimento de várias perguntas em minha antes tão pacata mente. Será que ela é boa de papo? Posso até um dia bater na porta dela e perguntar qualquer bobagem - isso se a minha já falada timidez permitisse, é claro. A minha adorável vizinha! O que será que ela faz? Quem afinal de contas é ela? Sinceramente não sei e nem tinha espírito de detetive o suficiente para descobrir mais detalhes da sua vida, tão marcada por um grande e desafiante ponto de interrogação. Da ponta da minha varanda dava pra ver que raras eram as vezes em as luzes do apartamento dela se acendiam. O preto era tão presente na vida da minha vizinha que isso só fazia aumentar a minha faminta curiosidade. Num raro dia de descuido e sorte, lembro-me bem, encontrei a minha vizinha de camisola preta, transparente, na varanda. “Mas o que faz uma pessoa ter tanta fissuração pela cor da solidão?”, pensava eu. Um dia tive a coragem de dar uma rápida olhada no lixo daquela mulher que, àquela altura, já povoava todos os meus sonhos (e pesadelos). O mistério é um ótimo tempero para os amantes. Pizza e (vários) cigarros de maconha foi o que encontrei ali. Não reconheci a maconha de primeira, mas me lembrei do meu primo, que no telhado da casa de praia da nossa família, não cansava de me oferecer o tal barato. Mas voltando... “O que faz uma mulher tão linda, amiga inseparável do escuro, viver de pizza e de maconha?”. Eram tantas perguntas que às vezes me faziam ter um ímpeto, ainda que passageiro, de bater a sua porta e dizer “que tal conversarmos?”. Nunca fiz isso, como você já pode prever. Sou previsível mesmo, confesso. Tinha de me contentar com as perguntas e todas as milhares de respostas que a minha criatividade produzia. Mas como tudo na vida tem um desfecho, eis o meu e o da minha adorável vizinha. Era o primeiro dia de inverno e eu cheguei do trabalho mais tarde do que costumava. Estava frio. Vi luzes brilharem já na portaria do meu prédio. Quando cheguei mais próximo percebi que eram sirenes. No chão, uma rachadura profunda por onde escoava um sangue vermelho flamejante. O porteiro não se fez de rogado e disse logo para mim: “sabe o que aconteceu?”. “Não”, disse eu. “A sua vizinha. Já foi! Pulou lá de cima e eu, daqui de baixo, só pude ouvir a batida seca.”. Tive uma tontura e subi rápido para o meu apartamento. Passei pela porta da minha vizinha, que pela primeira vez estava escancarada e lá de dentro dava para ver os uniformes dos policiais. Vinte minutos depois, minha campanhia toca. Um policial pergunta: “o senhor a conhecia?”. Olhei no fundo dos olhos do homem e disse que não. Completei: “tudo o que sei é que parecia ser uma pessoa maravilhosa.”. A minha vizinha morreu da mesma forma que a conheci: num piscar de olhos, na duração de um sorriso tímido. Já eu, bom, eu tinha o resto da vida para imaginar quem realmente ela era. A timidez, como sempre na minha vida, venceu.

29.8.09

Verdade, de Fato.

Eu não devia ter dito o que disse. Eu não devia ter dito isso ou aquilo. Eu simplesmente não devia ter dito. Agora que o sol volta a brilhar e o meu coração já não bate acelerado, vejo que é outro dia. Tão mesmo, tão igual. Passou. Juro que passou. Não volta mais. Sem mais nem menos, as coisas se perderam ao vento. E com elas se foram os extremos, os exageros de algo que (se existiu) assinou o seu final. E, desculpe, não faz mal. Juro que não faz. Já há algum tempo cresci. Foi-se a ingenuidade, a necessidade de se ter sonhos pueris. Com eles foram todos os encontros e os desencontros, os sabores e os dissabores de uma vida cheia de leveza, filha da nobreza de um coração juvenil. A maturidade chega e não deixa rastro. Isso é verdade, de fato. Confesso que fiz o meu melhor e, dele, surgiu o lado obscuro, a farsa de quem beija a face. Bem que se diz o bem que te fiz. Passou. Estou melhor, prometo. Então vamos deixar tudo em branco e preto. Adeus às cores de um tempo em que se passava numa vã filosofia, fruto de uma intelectualidade falsa e forçada. Enfim, chegamos ao fim. Eu que não devia ter dito o que disse. Eu que não devia ter dito que te amo.

6.6.09

Lumina III

Pensando nas Nuvens, a caminho do Redentor:

"A fila é o espelho do nosso país. Todo mundo reclama mas ninguém age"

"Nossa vida é como as notícias de elevador. Destaques apesar de superficiais"

"Cuidado com o sorriso frio. Com ele, você pode se queimar"

"O segredo é parecer genial. Mesmo quando não se é gênio"

"Engana-se quem compara o amor ao açúcar. Ele está mais para o café: um amargor que faz acordar"

23.12.08

Crônica do Adeus

A batida da porta do carro foi seca. Seca mesmo já era a palavra. “Chorei tudo que tinha para chorar”, ela disse num tom sem vida. “Não tenho mais o que chorar”, respondeu ele (como de costume) sem olhar. E assim se foram alguns longos anos de companheirismo, cheios de sonhos e desejos. O caminho de casa continua o mesmo, os buracos também são os mesmos, assim como a areia que faz derrapar e pega de surpresa. “Quem diria? Quem eu seria?”, o rapaz perguntava ao ar. Silêncio. Silêncio e nada mais. Nada mais. Ninguém irá entender o valor do adeus. Até porque, para o adeus, não há o que se entender, mas sim aceitar. Resignar. Foi-se o tempo da delicadeza. Foi-se num segundo tudo o que levou anos para ser descoberto. Construído e agora cruelmente destruído. “Drão, não pense na separação. Os erros são todos meus”, martela a música na cabeça dolorida e tensa dele. “Nosso amor tem que morrer pra germinar”, ela deve pensar. Não se sabe. Mas porque saber? São tantas as perguntas, um sentimento de dúvida misturado com dúvida, que deixa um gosto amargo na boca e no coração. “Não conseguimos”, agora ele pensa. “Somos frutos dos nossos destinos, entramos em diferentes caminhos”. E esse silêncio que não quer calar. Esse silêncio que chega a ensurdecer, que fala mais alto do que a vontade de mudar. Só o que resta entre os dois agora é o tempo: um velho amigo dos solitários e o grande vilão dos apaixonados. Na rua é Natal. E as luzes insistem em continuar a brilhar.

12.10.08

Contato

Olho no olho. Ele nota e logo faz cara de “estou aqui. Que tal?”. Ela cruza as pernas que mal cabem na mini-saia. Ele olha, olha... e aí olha pro teto. Depois dá uma tossida fraca, acompanhada por um pigarro. Presença marcada. Agora ela cruza as mãos, mostrando todos os anéis e as unhas bem feitas. Rosas. Femininas. Ele olha e dá um leve suspiro. Contato. O tempo passa. Ela olha para fora do saguão e pega o celular. Fala rápido, dá um tchau meio sem graça, meio sem ter nem porquê. Não se esquece de falar a palavra irmão. Chega a vez de ele cruzar as pernas. Agora, elas apontam para ela. Bom sinal. Contato. Sinais. Um terceiro corre e passa pela frente dos dois, que aproveitam e se olham mais uma vez. Olho no olho. Contato. Mas não basta só olhar, ele dá um sorriso de canto de boca. Ela devolve com um sorriso meio sem graça. Contato. Ele segue em frente e olha atentamente para os lábios dela. Ela nota, mas finge que não percebe. Desejo. Contato. Imediatamente abre a bolsa e tira uma bolsinha. Maquiagem. Passa o batom lentamente. Olha no espelho e pelo reflexo olha mais uma vez para ele. Uma piscadela rápida. Contato. Ele olha atentamente. Não iria deixar passar batido esse momento, é claro. Mais um sorriso. Dessa vez ela mostra os dentes brancos, emoldurados pelo batom vermelho. Desejo. Duas vezes desejo. Mais uma vez: contato. Ele levanta os braços e, meio que abraçando o ar, muda de posição na cadeira. Cotovelo com cotovelo. Contato. Arriscado, ele sabe, mas é assim mesmo. Até porque o tempo continua passando. Quer arriscar mais: prepara discurso na cabeça. Tem de ser sedutor sem, ao mesmo tempo, parecer meloso. Tem de ser inédito. Tem de ser criativo, digamos assim. Toma coragem, toma fôlego. Vai falar. “Senhores passageiros, última chamada para Santarém. Portão H.”. Ele olha pra ela como quem diz aliviado: “Não vou pra Santarém”. Ela pega as malas e se levanta rápido. Ele apenas acompanha. Olho no olho. Contato. Último contato.

29.6.08

P.S.C

Isso aqui é pra hoje. Hoje. Não tá entendendo? Bom, vamos lá... Eu quero isso nas minhas mãos ainda hoje, certo? Como assim não é possível? Não quero saber de prazo, meu amigo. Isso tem que ser feito e ponto! Acabou! Não, nada de “mas”. Chega de “mas”. Olha não tenho nada a ver com a sua vida. Se sua mãe está doente, isso é um problema seu. Aliás, o seu problema é seu. Entendeu? Escuta, você sabe o que significa a palavra “urgente”? Pois não parece! Muito me admira... Logo você... Eu sei, rapaz, mas o que é que eu estou lhe dizendo? Não tem essa de “prazo viável”. Meu dead line com você é hoje. Hoje, não! Agora! Tá bom, tá bom... Então daqui a cinco minutos e não se fala mais nisso, ok? Como assim “é pouco”? Deus criou o mundo em sete dias e você não pode criar isso em dois minutos? Já disse! Quero isso o quanto antes. Vou repetir: o quanto antes, hoje, agora! Rapaz, isso é urgente. Quer saber mais o quê? Pronto, agora você quer que eu lhe diga todos os passos. Assim eu mesmo faria! Sim... Sim... Sei... Sei... Isso... Certo... Beleza... Show de bola... Entendo, meu querido. Mas é você quem não está me entendendo: isso é pra agora! A-go-ra! É simples! Você pega a pesquisa... Olha só. Lá vai eu explicar de novo como você deve fazer. Não vou fazer isso não. Afinal de contas, eu estou aqui é pra lhe ensinar. É ou não é? Pois então? Não sei... Não sei... Quem deve me dizer isso é você. Como assim três dias? Três minutos e não se fala mais nisso! Olha só o tempo que você está perdendo aqui, rapaz! Já dava pra ter feito! Tenho uma reunião daqui a cinco minutos. Pensando bem... Seria ótimo já levar isso pronto, não é mesmo? Vamos lá... Haja paciência! Recapitulando: isso é para agora. Ou melhor, isso aqui é para ontem!

7.11.06

A Esfinge

O vento sopra em seus cabelos, que se misturam à boca entreaberta, quase sedutora. Os lábios estão secos. Ela olha e nada vê. Não consegue mais distinguir entre os carros e as pessoas, pensando que realmente deve estar louca. Pensa que talvez por isso nunca a tenham compreendido. Talvez por isso as pessoas lhe pareçam mais complicadas do que verdadeiramente são. Para ela, o mundo sempre lhe foi uma esfinge. Os beijos e os abraços sempre foram frágeis, ao ponto de, num simples sopro do destino, acabar com amizades de anos, ditas “feitas para durar”. Nesse momento – pensa ela agora – “finalmente estou só”. Ela já não precisa mais da companhia de ninguém. Aliás, não-estar-sozinha sempre foi algo que ela sempre quis, mas que nunca teve. Ela está usando a mesma roupa da sua festinha de quinze anos: um vestido simples, cheio de babados, lantejoulas e esperanças rasgadas. Lembra-se perfeitamente da sua mãe fazendo um esforço enorme para provar de que tudo estava bem naquele dia. De que tudo estava como a novela das oito que ela “não perdia por nada nesse mundo”. No entanto, seu pai já não era mais o mesmo, sua irmã era magra e problemática e seu irmão, bom, esse só Deus sabia onde estava. Parecia uma família feliz. Realmente parecia. É incrível como agora as coisas passam rápido pela mente dessa garota. Ela pode até se lembrar do primeiro dia de aula, que outrora fez questão de esquecer. Tinha dezessete anos completados no mês anterior. Não tinha idéia na cabeça, não tinha crença num futuro. Foi quando, de repente, ela olhou para o lado e viu um menino moreno, de cabelos ondulados. Nada de especial, é bem verdade. O que a conquistou foram os olhos daquele menino, tão sinceros e transparentes. Foi assim que ela conheceu a paixão. Pela primeira vez o mundo lhe pareceu mais bonito, mais vivo e – porque não dizer? – mais convidativo. Teve medo. Sentimentos assim eram raros para ela e, exatamente por isso, resolveu dizer “não”. Já havia dito essa palavra outras vezes na vida, mas naquele momento era bem mais doloroso dizê-lo. Optou por abrir mão da sua felicidade e repetia num tom baixinho e monocórdio, tipo de confissão: “o medo é mais forte do que eu”. Pronto! Fim dos devaneios! A garota olha para o céu e vê as estrelas acima de sua cabeça. As luzes estrelares já não lhe parecem sem sentido, e agora elas passam uma sensação de caminho, como um destino que não se pode mudar, como um trem que não se pode parar. Ela sabe que é chegada a hora. Levanta os braços trêmulos e deixa o seu corpo na forma de cruz, num sinal evidente de adeus a um mundo que jamais conseguira entender, decifrar. É quando a menina descobre que a esfinge era ela mesma. Foi-se. Para nunca mais voltar. Lá em baixo as pessoas se perguntavam: “como pôde uma menina tão linda fazer uma coisa dessas?”. A resposta é que se pode ver a beleza que está na cara, mas jamais se pode ver a tristeza que está no coração.

20.10.06

Pontos Opostos

Quem é você que não me deixa dormir
Que não me diz para onde ir
Nem o que pensar, nem aonde chegar

Quem é você que fez do momento um instante
Que fez da vida um caminho distante
Sem avisar, Terra sem mar

Quem é você que não me deixa mentir
Que não me diz para onde ir
Nem o que saber, nem como fugir

Quem é você que alimenta a minha solidão
Que mata de fome a razão
Sem cara, sem pó, sem chão

Nós que somos diferentes
Pai e filho do que se diz impuro
Órfãos do vazio e de tudo
Reféns do que me parece sem curso

(Refrão)
Você que é sol e eu sombra
Você que é rio e eu onda
Você que é vinho e eu água
Você que é tudo e eu nada

Essa letra foi escrita especialmente para o meu amigo Johnny, um dos fundadores da Jade Zero, hoje, peça-chave da Banda The Cliftons. Sucesso, meu irmão!



21.9.06

A Foto



Esta é uma foto que eu sempre quis comentar. Para tanto, já que desde criança não consegui usar a pior arma do ser humano, que é a indiferença, sou sincero em dizer que não me responsabilizo pelo o que será escrito a partir daqui. Mas não me importa. Eu conheço bem uma arma tão fatal quanto as bombas americanas: a ironia. O sarcasmo. Olhe fixamente, caro leitor, para o rosto desta menina. Que lindo, não? Seu choro expressa um clímax que poucas pessoas no mundo – tenho certeza disso – puderam um dia alcançar. Não podemos ver as lágrimas, mas sabemos que elas estão lá, escorrendo pelo rosto cheio de emoção e de dor. É uma beleza sem precedentes, porque prova o que o homem é capaz de sentir e, principalmente, fazer. Deixa claro, então, que não há mais limites para nós. A insanidade tem essa virtude: ela é livre. Olhemos mais uma vez para a foto e, agora, preste atenção aos pés da menina. Estão descalços e parecem flutuar. São pés de menina-moça, capazes de fazê-la correr numa sublime agonia rumo a nenhum lugar. E a barriga dela, leitor? Veja só que maravilha! É fruto de uma magreza única, de um sofrimento que não se pode mais esconder. Como uma mentira, que de tão grande não se consegue mais sustentar. E o corpo? Totalmente desnudo, de uma leveza que somente o sofrimento pode dar. Note agora que os braços estão entreabertos, criando uma visão perfeita e verdadeira do desolamento humano, que nem Edvard Munch conseguiria expressar. Essa foto é capaz de deixar até mesmo o mestre Da Vinci para trás. Afinal, para quê pintar telas de anjos que expressam a alma humana, bem de acordo com os preceitos da “divindade” (note as aspas) ariana? Depois dela, para mim nenhum artista poderá, jamais, retratar a dor de maneira tão bela, tão perfeita, num caso raro de misto de realidade com insanidade. Ela é momento, um raro momento. Talvez seja o resultado de um segundo, ou até mesmo um milésimo de segundo, de um intervalo entre o fogo e a explosão de sentimentos, que essa menina tão divinamente conseguiu retratar. Não sei mais o que dizer, nem mesmo pensar, caro leitor. Serei sincero com você. Paro esses escritos por aqui, pois me sinto completamente desarmado. Nem mesmo a ironia me foi útil, confesso. Afinal, de que valem as palavras se elas de nada me servem agora? Não há nada mais para ser dito. Fico mudo, em silêncio. Sem palavras.

A foto – Até hoje é lembrada como uma das mais terríveis imagens da Guerra do Vietnã, tirada em 8 de junho de 1972, pelo fotógrafo Nick Ut.

A menina – Seu nome é Kim Phuc, teve metade do seu corpo queimado e passou por 17 cirurgias. Atualmente é Embaixatriz da Boa Vontade da UNESCO.

"Todas as pessoas deveriam ver essa foto, mesmo hoje, porque mostra claramente como uma guerra é terrível para as crianças. Você pode ver o terror no meu rosto. Basta ver a foto, para as pessoas aprenderem."
Kim Phuc, em entrevista para a BBC World Service.

20.9.06

Simplesmente Homem

A nossa canção já não toca mais, e o nosso filme preferido não foi premiado. Quando a porta bateu e deixou no ar o seu rastro de perfume, pareceu que tudo tinha mudado em apenas um segundo. Um segundo. Igual mesmo só ficou aquele meu sorriso amarelo, que sempre surge nas horas de tédio, minhas acompanhantes nas ruas escuras desta cidade solitária. É incrível como as cores, antes reluzentes e cheias de vida, agora se tornaram opacas e difusas, da mesma forma que ficou a minha mente naquele dia nublado. O dia em que dissemos adeus e fomos embora para novos lugares, procurar por outras aventuras. O cansaço e a mesmice nos venceram. Fomos vencidos pela monotonia. O amor tem dessas coisas, e o caminho possui suas armadilhas e seus caprichos. Justamente nós, que sempre acreditamos no destino, agora estamos assustados com o que ele nos reservou: uma vida literalmente a dois. Eu somente eu. Você, o que eu perdi. E se foi. E se fez lembrança. Já não durmo mais, a cama me parece grande, o quarto me parece apertado. Difícil é acordar e ver pela janela as pessoas sorrindo lá embaixo, como se nada tivesse acontecido. Como se a catástrofe que matou a minha esperança não tivesse mudado as coisas ao meu redor. Parece-me que somente o mundo que construímos ruiu, e com ele se foram as minhas alegrias e a minha paz. Acaso ainda queira saber, continuo no 753, meu telefone ainda é o mesmo e a nossa casa não mudou. Peço desculpas por esta carta melosa ao extremo. Melosa como toda carta de amor deve ser. E que ironia, não? Logo eu, que sempre fui discreto nos sentimentos, aproveito esta noite de solidão, para gritar por meio desta letra trêmula e nervosa: VOLTA! Não me importa o tempo que passou, muito menos os anos que perdemos. Não me importa! Até porque não tenho dúvidas de que o seu sorriso ainda é o mesmo. Capaz de me fazer sentir como um menino que precisa da mãe para estar seguro, como um artista que precisa da obra para ser jovem, e como um homem que precisa do amor para sentir-se homem. Simplesmente homem.

6.9.06

Quadrilhas

Quadrilha
Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

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Quadrilha (Século XXI)
Bruno Guerra

João nunca amou Teresa que odiava Raimundo
que “ficou” com Maria que teve um caso com Joaquim que traiu Lili
que não amava ninguém.
João foi ilegalmente para os Estados Unidos, Teresa virou prostituta,
Raimundo foi assassinado num assalto, Maria casou-se com um empresário rico,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com a sua carreira profissional
que fez dela uma socialite emergente, sócia e amante do marido de Maria.

Laço Vermelho-Puro

Sua mãe sempre foi autoritária. Tanto, que Roberta parecia que já nascera com aquele laço vermelho-puro amarrado aos seus cabelos. Tinha horas em que ela, quando ainda pequenina, queria ser igual às outras meninas de sua escola: diferente. Porém sua mãe nunca deixou que isso acontecesse, alegando razões que muitas vezes mostravam-se inconsistentes. Não tinha jeito, era sempre o mesmo laço vermelho que vencia a batalha, que apesar de amistosa, ia deixando marcas e um certo mal-estar na relação entre mãe e filha. O fato é que o tempo não pára e torna tudo obsoleto, ultrapassado. Roberta amadureceu e com dezessete anos decidiu que não mais usaria o tão “famoso” e odiado laço vermelho. Ela queria provar novas sensações, novos caminhos e, principalmente, fazer outras escolhas. Para isso, era essencial declarar a dolorosa decisão a sua mãe. Somente dessa forma Roberta poderia sentir o gosto do vento em seus cabelos escuros e sem vida. Somente assim ela poderia sentir-se, finalmente, livre. E assim aconteceu o desenlace. Depois de muitas lágrimas e discussões acaloradas, Roberta poderia usar o que quisesse nos seus cabelos. Tanto que eles subitamente adquiriram um valor que antes nunca tiveram, pois haviam se transformado num símbolo de novos tempos, de uma nova vida. Sua mãe morrera pouco tempo depois, e Roberta não chorou. A relação entre as duas já estava muito desgastada. E assim seguiu a vida da menina que agora era mulher: sem laço vermelho, sem cabelos presos e bem penteados. Depois dessa conquista, sua vida não foi um mar de rosas, é bem verdade. Mas para a liberdade, não há laço que segure, não há ideologia que amarre. Ser livre é tudo. Afinal, não há preço que pague a liberdade, nem mesmo o amor por uma mãe.